O esporte moderno não tem nada a ver com jogo, prazer ou diversão, diz Chris Bambery. Ao contrário disso, ele reflete as restrições e a ideologia da sociedade capitalista.
Para milhões de pessoas o esporte serve como uma válvula de escape para a realidade da vida cotidiana. É algo com que elas podem se identificar, em equipes ou individualmente, em um mundo em que vivemos cada vez mais isolados uns dos outros.
Mas, o fato é que as Olimpíadas são um evento empresarial. O patrocínio das grandes empresas para os Jogos de Pequim representam o dobro do que foi gasto em Sidney, em 2000 e três vezes em relação a Atenas, em 2004.
As autoridades de Pequim estão impedindo a exposição de qualquer anúncio que não seja dos patrocinadores do evento. Os gastos com anúncios em cartazes e outdoors chegam a 2,7 bilhões de dólares. O McDonalds é o restaurante oficial da Olimpíada e a Coca-Cola, a bebida dos jogos.
Enquanto isso, um milhão de trabalhadores imigrantes estão sendo encorajados a sair da cidade. Nenhuma novidade nisso. Os russos "limparam" Moscou de seus dissidentes em 1980. Quatro anos depois, Los Angeles, tirou os sem-teto de suas ruas.
Quando aconteceram os protestos em relação ao domínio chinês sobre o Tibete durante o trajeto da tocha olímpica, muitos gritaram "deixem a política longe do esporte". No entanto, a política tem sido parte da história dos Jogos.
O mais famoso exemplo foram os jogos de 1936 em Berlim, usado por Hitler como um espetáculo do Terceiro Reich. Em 1968, os governantes do México ordenaram um massacre contra estudantes que se manifestavam, às vésperas da abertura da Olimpíada.
A divisão em times exigia a especificação das posições em campo e habilidades particulares. A definição de quem são os vencedores e os perdedores não deixa qualquer dúvida. As hierarquias foram integradas ao esporte.
A competição é central para o capitalismo e afeta todos os tipos de atividade humana. Inclusive, o amor, as brincadeiras e as relações sociais. É o que caracteriza o esporte.
Esporte sem competição é uma contradição em termos. O esporte representa a tirania de máquinas, do relógio e de regras duras sobre o esforço humano.
Assim sob o capitalismo, o esporte limita-se a tentar ser o primeiro, derrotar o oponente e estabelecer novos recordes. O treinamento é o trabalho duro do esporte e vem tornando-se cada vez mais desumano.
O herói dessa ideologia são os homens e mulheres que alcançam grandes conquistas por seu próprio mérito e esforço. A lição é a de que qualquer um pode chegar ao topo. A realidade é bem diferente.
Os adolescentes que se tornam jogadores profissionais de futebol não são necessariamente os melhores e mais talentosos.
Freqüentemente, eles são os mais preparados para aceitar uma disciplina rígida e intensiva que exige a deformação de seus corpos. O uso de doping tornou-se comum entre os atletas para ultrapassar e forçar os limites físicos.
A atividade física distanciou-se do jogo e do prazer. Não haverá nenhum "jogo" nas Olimpíadas. Ninguém está lá para jogar, mas para competir e vencer.
A ginástica foi desenvolvida na Alemanha como uma forma consciente de treinar jovens para o serviço militar. Os modernos jogos olímpicos foram inventados pelo Barão Pierre de Coubertin, que acreditava que o esporte era fundamental para vencer guerras.
O esporte é vendido como uma foram de escapar do estresse da vida e muitas pessoas acreditam nisso. Vamos examinar o papel do "lazer" sob o capitalismo em relação à realidade do trabalho.
Vivemos em uma sociedade em que temos que vender nossa força-de-trabalho para viver. O trabalho tornou-se algo que domina nossas vidas. Algo que não controlamos e que cria pouco ou nenhuma sensação de realização.
Nesse contexto, o tempo de trabalho tornou-se totalmente oposto e separado do tempo em que não trabalhamos. Damos enorme valor ao nosso tempo "livre". Mas o tempo "livre" não é "livre". Ele é moldado pelo mercado.
Como disse o marxista Harry Braverman, "preencher o tempo em que ficamos distante do trabalho também tornou-se dependente do mercado, que desenvolveu em elevado grau os divertimentos, entretenimentos e espetáculos que se adéquam às situações restritas da vida urbana e são oferecidos como substitutos da própria vida".
"Desde tais atividades que se tornaram meios de preencher nossas horas 'livres', passaram a ser largamente fornecidos por instituições empresariais que transformaram todo os meios de entretenimento e ‘esporte’ em um processo de produção para a ampliação do capital".
E ele acrescenta, "É assim que o capital encontra maneiras de transformar as iniciativas pessoais, amadoras e ‘alternativas’ no campo da natureza, do esporte ou da arte em atividades incorporadas ao mercado, o mais rapidamente possível".
O esporte, como o vemos hoje em dia, é um produto do capitalismo e é moldado por todos os preconceitos e restrições que existem na sociedade em geral. Não é produto de uma evolução natural.
Em um mundo em que controlássemos nossas vidas e estivéssemos em harmonia com o ambiente, nós desfrutaríamos do prazer de nadar no mar, escalar montanhas assim como ler livros, construir casas e criar plantas. Num mundo assim, a atividade física se libertaria das restrições da competição.
A libertação humana não envolve 22 homens jogando futebol para milhões assistirem pela televisão. Nem mulheres e homens atravessando piscinas competindo uns com os outros sob domínio do relógio.
Recreação física e jogos são formas de desfrutar do próprio corpo, da companhia dos amigos e da natureza. Esporte não é isso.
Esporte é competição e obediência a regras arbitrárias. Uma preparação ideal para o processo capitalista de produção.
Chris Bambery - Socialist Worker - 9 August 2008 | issue 2113